10.3.17

Reinauguração de cineteatro abre espaço para artistas de Jaboatão

O desapontamento dos artistas sobre o incentivo público em cultura é tema desta reportagem especial

JABOATÃO CENTRO, 2015 — Do outro lado da Avenida Barão de Lucena era possível enxergar a fila que se formava em frente ao Cineteatro Samuel Campelo. A noite de 31 de janeiro de 2016 marcava a primeira apresentação do espetáculo teatral. A reinauguração do espaço ocorreu em 18 de dezembro do ano anterior. 

A fila fazia duas voltas na Praça Nossa Sra. Do Rosário e já circulavam boatos de que os ingressos estavam esgotados. Havia grande confusão no guichê entre os ansiosos, o bilheteiro e os seguranças. O público parecia não entender que o espaço comportava apenas 500 pessoas. Nos arredores do cineteatro, três blocos carnavalescos iniciavam as prévias do carnaval daquele ano. Tudo parecia a mesma festa. Cerca de 1000 pessoas compareceram ao Cineteatro, metade do publico pôde entrar.

Fui agraciado por um bondoso senhor de boina preta que por algum motivo escolheu a mim para doar um par de ingressos. “Você quer assistir à apresentação?” perguntou ao se aproximar, explicando que não poderia ficar. Minutos depois lutava para passar entre os furiosos que não tiveram a mesma sorte. 
FOTO: REPRODUÇÃO/FACEBOOK
Marcada para iniciar às 20h, a peça “Auto da Compadecida” de Ariano Suassuna, encenada pelo grupo Cia. De Artes Famosos Anônimos, teve exatos 40 minutos de atraso. Do lado de dentro, parte do público se divida entre os insatisfeitos, o que não percebiam o tempo passar e os entusiasmados que ficavam circulando de um lado para o outro. Havia um grupo mais discreto, formado pelos meus olhos e ouvidos, que registravam tudo o que acontecia para fazer esta reportagem. 

Fora do cineteatro algumas pessoas que aguardavam na fila ficaram ensandecidas por não conseguirem entrar. A estudante de enfermagem Karina Gomes, 21, não conseguiu os ingressos que estavam sendo distribuídos gratuitamente. Ela acompanhava a sua mãe que assistiria à primeira peça de teatro na vida. “As pessoas ficaram irritadas com a falta de organização e por terem se deslocado de suas casas pra prestigiar o evento. Eu vi que algumas até tentaram quebrar o portão para entrar.” 

Durante o período que  foi realizado o espetáculo, a Prefeitura de Jaboatão não tinha completado o quadro de funcionários de coordenação do Cineteatro Samuel Campelo.  Até a publicação desta matéria não obtivemos resposta da administração do cineteatro sobre o caso. Atualmente o cineteatro encontra-se novamente sem um quadro de funcionários fixos. 

O novo Cineteatro Samuel Campelo 
A expectativa de ver o resultado de uma obra de reconstrução e restauração, do espaço que estava fechado há 15 anos, orçada em 7 milhões de reais, sendo 500 mil reais recebidos através de convênio com o Ministério da Cultura (MinC) e o restante investido pela prefeitura de Jaboatão, talvez tenha sido a causa de todo alvoroço do público. Não se sabe.

O Cineteatro sofreu grandes modificações na estrutura original. Com o fim das obras passou de 832 lugares para 500, sendo 491 acomodações de poltronas e os demais espaços para cadeirantes. O auditório e o palco foram totalmente reconstruídos. A fachada original, o ladrilho da entrada e o piso de azulejos foram mantidos. Tudo estava impecável. Originalmente construído em 1909, o Cineteatro sofreu diversas reformas. A mais marcante ocorreu com a demolição do prédio e sua reconstrução em 1947 pela, então, Companhia de Melhoramentos e Diversões.

História
O despertar da cultura jaboatonense começou desde a formação do seu primeiro povoado a partir de 1593. Depois que a cidade foi palco de duas grandes batalhas contra os Holandeses em Pernambuco, ficou reconhecida como o “berço da pátria”. Desde então a cultura jaboatonense tornou-se ainda mais peculiar. Depois de 424 anos desde a sua fundação, figuras importantes transformariam Jaboatão.
Praça Nossa Senhora do Rosário - Jaboatão, 1966. FOTO: ACERVO HISTÓRICO
O teatrólogo Samuel Campelo, que empresta o nome ao Cineteatro, nasceu na cidade de Escada, em 1889 e posteriormente estabeleceu-se em Jaboatão. Desde os 13 anos de idade escrevia as primeiras peças teatrais. Sua trajetória é marcada por uma vasta criação de obras, sendo um dos principais artistas de teatro do Estado. Ele foi responsável pela fundação do “Grupo Gente Nossa”, precursor da modernidade teatral no Recife e no Nordeste. Samuel Campelo faleceu no ano de 1939, no Recife.

Às margens da avenida principal, o prédio do Cineteatro Samuel Campelo situa-se no Centro Histórico de Jaboatão. Durante o dia, a intensa atividade comercial e a história, marcada pelas construções antigas, dividem o mesmo espaço. Em noites normais as ruas ficam desertas e silenciosas — e impressionantemente mais limpas que durante o dia.

Cia de Artes
O produtor audiovisual Christiano Júnior, de 22 anos, avalia que o cenário cultural da cidade está renascendo. “Fundamos a Cia. De Artes Famosos Anônimos quando éramos muito novos e inexperientes. Não tínhamos conhecimento sobre confecção de figurinos, construção de cenários e muito menos realização de eventos, o que muitas vezes levava outros artistas locais a olharem pro grupo como se fossemos crianças que brincavam de fazer teatro, de fato éramos. Teatro sempre foi o meu hobby mais gostoso de fazer, e esse amor que todos nós tínhamos foi o responsável por nos dar a credibilidade que conquistamos, ao realizar inúmeros espetáculos na Casa da Cultura, a Paixão de Cristo no Centro da cidade e a reinauguração do Samuel Campelo. O maior desafio foi aprender a fazer coisas que nunca tínhamos feito, e a solução sempre foi o carinho com o que fazíamos”. 

Entre estudantes e profissionais de diversas áreas, 22 membros integraram a Cia. de Artes Famosos Anônimos para o espetáculo do Auto da Compadecida, sendo 16 atores e o resto da produção.

Christiano Junior afirma que, embora alguns políticos locais não reconheçam, Jaboatão é uma terra multicultural. Ele menciona agremiações culturais como o Maracatu Aurora Africana, a auadrilha junina Chiclete com Banana, o Boi Sorriso e diz que são exemplos da variedade cultural da cidade. “Esses e outros grupos vivem numa luta diária pela sobrevivência, para que nossa cultura não seja esquecida”, ressalta.
Christiano Junior à esquerda, Pedro Faustinus à direita. FOTO: DIVULGAÇÃO
“O Cineteatro Samuel Campelo é um equipamento de ponta e deve estar à disposição, preferencialmente, do artista da terra a fim de desenvolver e incentivar a produção cultural local”, afirma Pedro Faustinus, 22, diretor da Associação Jaboatonense de Artes Geração X (AJAX).

Recentemente foi aprovada a Lei Municipal n. 12299/16 que cria o Sistema Municipal de Cultura de Jaboatão dos Guararapes. “A atuação do Conselho Municipal de Cultura foi fundamental para essa conquista e avanço na política cultural do nosso município. Cada um e cada uma dos conselheiros governamentais e da sociedade civil, bem como todos e todas que contribuíram com o debate na Conferência e nos fóruns descentralizados é agente responsável por esse marco que poderá ser um divisor de águas na história da cultura jaboatonense”, declarou Isaac Luna, ex-secretário da Cultura de Jaboatão, em uma rede social.

O setor cultural está estagnado durante anos. A reportagem conversou com vários artistas locais que afirmaram a falta de investimentos em cultura. Não é preciso se esforçar para perceber que os jaboatonenses não têm o acesso às artes e ao lazer. Só no ano passado a tradicional festa de virada do ano foi cancelada. No Centro Histórico quase não há nenhuma atividade cultural desenvolvida para a população. A atividade histórico-turística não existe.

Geração X
Membros da Associação de Artes Jaboatonense Geração X. FOTO: DIVULGAÇÃO
Embora o investimento em cultura seja baixo, surgem grupos e associações artísticas que promovem o rejuvenescimento de uma cultura negligenciada. É o que acontece com a Associação Jaboatonense de Artes Geração X. O grupo é formado por 33 artistas que buscam disseminar e desenvolver práticas artística-culturais na cidade. A Ajax nasceu dentro de eventos artísticos oriundos nas escolas da região.

“É da natureza do jovem querer algo novo, querer inovar e acima de tudo, renovar. Tentar enxergar o futuro da cultura jaboatonense talvez seja o melhor caminho pra mantê-la viva nos costumes jaboatonenses. Um dos objetivos e desafios da Ajax é de trazer a ideia de resgate da autoestima do povo jaboatonense. Nada melhor de começar isso através da juventude” comenta Faustinus. 

Christiano Júnior e Pedro Faustinus concordam que o Cineteatro Samuel Campelo deu um fôlego no movimento cultural local. Quando questionados sobre o lado positivo da balança cultural eles foram enfáticos. Pedro Faustinus afirma que a força da juventude é a grande base do novo movimento cultural, mas pondera que os grupos consagrados já não estão atuantes em novas frentes como antes por terem adquirido certa estabilidade. “Isso é ruim para o desenvolvimento da cultura. A cultura precisa ser dinâmica e não engessada.” Já Christiano Júnior compara Jaboatão com as cidades Recife e Olinda e rebate que falta maior investimento para as atividades culturais. “Talento não nos falta. O povo de Jaboatão já canta, dança, atua, grafita, escreve, declama, pinta, desenha, confecciona e modela tanto quanto Olinda e Recife”. 

Ações culturais independentes acontecem a todo instante em Jaboatão. O poder público parece não aceitar as novas manifestações populares e deslegitima a atuação dos jovens artistas jaboatonenses. A população, segundo IBGE, estimada em 691.125 habitantes não reconhece seus novos artistas. Embora projetos como a Lei de Incentivo a Cultura e a forte atuação dos movimentos culturais locais, a realidade ideal está longe de ser alcançada. 

As juventudes como novos agentes culturais
Quatro jaboatonenses que sentem na prática as dificuldades encontradas em produzir e viver de sua arte contam as dificuldades entre ser jovem e agente produtor de cultura na cidade de Jaboatão.

Aos nove anos, Ketelyn Oliveira, 20, começou a cantar no coral da igreja que frequentava. Desde então não parou de se apresentar nos palcos de teatros, bares ou em praças públicas. Seu último trabalho foi o Natal Caleidoscópico, e cantou em parceria da Banda Pétala, no projeto beneficente de arrecadação de alimentos. Para se promover, a artista utiliza as redes sociais publicando vídeos performando canções de artistas consagrados. Ela ressalta a importância do Cineteatro para a população e denuncia o descaso dos governantes com a cidade. 

“É importante deixar claro que Jaboatão é uma fábrica de artistas. Somos centenas de atores, cantores, pintores, compositores, músicos e cineastas. Infelizmente nossa cidade não é ressaltada por falta de interesse dos políticos em apoiar nosso segmento. Essa é a maior dificuldade, falta de incentivo a projetos bacanas.” A cantora espera que a população tenha cada vez mais interesse em conhecer a cultura local.

A modelo jaboatonense Rebeca Albuquerque, 18, é motivo de suspiros sempre que compartilha seus trabalhos nas redes sociais. Ela foi convidada para representar o bairro de Vila Rica, no concurso de beleza Top Model Jaboatão, organizado por Felipe Travassos. Todos os participantes do evento são da cidade e cada candidato representava um bairro. Embora o número de apreciadores do trabalho da modelo seja considerável na internet, Rebeca lamenta o mercado escasso. “Infelizmente aqui em Jaboatão é difícil aparecer trabalho na área ou em alguma campanha.” 

O organizador de eventos de moda Felipe Travassos, 45, afirma que as perspectivas não são animadoras. “A proposta do concurso sempre foi lançar os meninos e meninas no mundo da moda, mas a situação em Jaboatão é muito difícil, não há apoio nenhum. Realizei meu último evento em Jaboatão no ano passado.”

Da esquerda para a direita: Ketelyn Olivera, Felipe Travassos, Rebeca Albuquerque, João Julio, Wydi Silva. FOTO: DIVULGAÇÃO
João Júlio, 24, comediante-humorista, afirma que fazer humor em tempos tão ociosos não é fácil. O artista que também é produtor de conteúdo na página The João Júlio Show, conta que os donos de estabelecimentos, especialmente no Centro de Jaboatão, não entendem a proposta do espetáculo de stand up. “Espaço sempre foi um assunto delicado. Jaboatão é uma cidade que ainda não abraçou o Stand Up por completo, tirando a região de Piedade, que têm shows por lá. O Centro sempre foi difícil. Muitos donos de estabelecimentos não entendem a proposta. Cabe a nós, comediantes, irmos atrás desses espaços e ver a aceitação do público.”

Segundo João Júlio, a recepção do público com o seu trabalho sempre foi boa, mas a modalidade de apresentação ainda é tratada como estranha. “Falta espaço e oportunidade para trabalho. Temos uma ótima ferramenta que é um teatro novo, e que espera grandes espetáculos, mas é mal utilizado. Também temos o fato de o Stand Up, mesmo sendo algo antigo, ainda ser tratado como algo diferente, estranho. Temos que aproximar o público.”

Para a atriz e esteticista Wydi Silva, 19, a dança está em evidência na cidade de Jaboatão. Segundo ela, a Associação Jaboatonense de Artes Geração X tem revolucionado com uma proposta inovadora voltada ao público jovem. A atriz denuncia que a falta de valorização dos artistas da cidade não só parte do poder público, mas também dos cidadãos.

 “A verdade é que não há um estimulo vivo e constante para que a população crie interesse em prestigiar os projetos daqui. A recepção do público é calorosa, porém, desinteressada.” A atriz que já interpretou a personagem Maria na Paixão de Cristo de Jaboatão, percebeu suas habilidades para as artes dramáticas quando estava no terceiro ano do Ensino Médio ao participar de um mostra literária. 

“Fizemos uma releitura do clássico ‘Alice no País das Maravilhas’ de Lewis Carroll para o cordel cujo título é Cordelice. Neste curta-metragem, incorporei a personagem Alice e vi que foi a coisa mais incrível que eu já tinha feito em minha vida. O nosso diretor Christiano Júnior viu potencial em mim e me convidou para participar do grupo Cia. de Artes Famosos Anônimos onde iniciei minha história de atriz fazendo peças e outros trabalhos à parte.” Esse é o exemplo de muitos outros jovens que através de atividades artísticas escolares descobrem o seu talento.

O fim de um espetáculo: marco do inicio de um novo movimento cultural?
Às 22h40, daquele domingo, 31 de janeiro de 2016, o primeiro espetáculo teatral de reinauguração do Cineteatro Samuel Campelo chegou ao fim. O público aplaudiu durante longos quatro minutos. Depois dos agradecimentos os atores se dirigiram à fachada do teatro para cumprimentar os espectadores. Mais uma fila se formava. Dessa vez todos seriam atendidos. 
Dia de espetáculo da Cia. de Artes Famosos Anonimos no Cineteatro Samuel Campelo. FOTO: REPRODUÇÃO/FACEBOOK

O quadro de funcionários do Cineteatro Samuel Campelo foi novamente reajustado. Durante o período de férias deste ano não houve nenhuma programação. Os novos artistas de Jaboatão terão seus momentos de glória. Resta saber se estamparão as suas conquistas com o orgulho de ser da cidade ou se a esquecerão por ficarem abandonados.

8.3.17

No filme "Redemoinho" duas vidas são reavaliadas

O encontro de dois amigos regado a muito bebida, lembranças e rancores é tema de "Redemoinho". O filme não pretende contar um passado, se concentra num presente descontextualizado, e termina num futuro sem perspectiva
FOTO: WALTER CARVALHO
O reencontro ao acaso de dois amigos de infância na cidade de Cataguases, Minas Gerais, constitui o enredo do filme "Redemoinho", dirigido por José Luiz Villamarim e roteirizado por George Moura. O longa-metragem utiliza da dicotomia entre partida e permanência, passado e presente, sucesso e infortúnio para justificar o trauma de uma relação que não se solidifica entre os protagonistas da trama.

O primeiro elemento que caracteriza a obra é a crueza do barulho. O som é uma ferramenta física de impacto. O som machuca. As cenas de todo o longa possuem a ausência de trilha sonora musical. O barulho e o silêncio, contradições necessárias, fazem a atmosfera da trama ganhar peso. Embora as sequências das cenas iniciais se mostrem de uma delicadeza em sua imagética, e ao mesmo tempo, consistente em termos sonoros, a densidade da sonorização transporta, gradativamente, o espectador para uma turbulência auditiva incessante. 

A forma que o som e a imagem se encontram como um meio de problematizar a relação dos personagens Luzimar (Irandhir Santos) e Gildo (Júlio Andrade) nos remete a uma dinâmica ruidosa que se desenvolve, ainda que compassadamente, sem uma ideia de inicio ou de término entre os protagonistas.

Pensando sobre tecnologia associada à exibição da obra, seria importante considerar que elas envolvem aparatos fundamentais que imprimem ao espectador uma única experiência. A obra cinematográfica em questão possui em termos de imagem um enquadramento arrojado e, em certo sentido, revolucionário. A beleza da fotografia de Walter Carvalho e a potência da propagação do som fazem os espectadores ‘imergirem’ pela tela de cinema. "Redemoinho" se impõe pela relação imagem-som da experimentação do espectador no cinema. Talvez seja menos plausível a experiência por uma televisão, ou dispositivos móveis, reduzindo um dos potenciais deste longa-metragem à simples apreciação do imagético.
FOTO: WALTER CARVALHO
As possíveis justificativas entre a presença de corpos sonoros, como as cenas da chuva, do trem passando no meio da cidade, da fabrica, do rio ou da ausência da sonoridade, está na construção de discursos que tentam estabelecer estratégias para a trama.

A escolha do elenco pode ser uma das decisões mais cruciais e difíceis em determinados casos, mesmo que saibamos que o personagem praticamente define o ator ou atriz que deverá interpreta-lo. Os personagens de Irandhir Santos (Luzimar), Júlio Andrade (Gildo), Dira Paes (Toninha), Cássia Kis Magro (Dona Marta) e Demick Lopes (Zunga) embora sejam criveis não se sustentam com a textura da película. A trama, que se desenvolve a partir do reencontro dos amigos Luzimar e Gildo e as rememorações de um passado ininteligível, não convence. Neste sentido, faltou profundidade para os personagens, o que não se justifica se incluirmos até os protagonistas. As excelentes atuações dos atores consagrados da dramaturgia nacional, como Cássia Kis Magro, Dira Paes, Irandhir Santos não foram capazes de salvar a trama que parte do enfado ao incomodo.

A primeira pessoa que vê o filme, segundo as más-línguas, são os roteiristas. Espera-se dos roteiristas a história descrita em imagens e sons, contando uma narrativa com tenuidade, e certo preso pela literária, para que o espectador possa ver, ouvir e sentir. Roteiristas são artistas. Dentre todos os processos de materialização do filme, "Redemoinho" fraqueja no roteiro. Baseado no romance “Inferno Provisório” do escritor mineiro Luiz Ruffato, o roteiro careceu de amadurecimento da história. A sensação é de que faltou um mergulho no processo.

A estrutura da história, que não se apega ao tradicional início, meio e fim, foi usada de forma corajosa e atrevida. "Redemoinho" não pretende contar um passado, se concentra num presente descontextualizado, e termina num futuro sem perspectiva. A momentaneidade da trama não dá folego aos espectadores para entenderem os motivos que levaram aos personagens a serem quem são ou a justificativa para determinadas atitudes.
FOTO: WALTER CARVALHO
As identidades parecem muito bem demarcadas: o cara metido a rico que se deu bem na vida; a mãe que engole todos os sapos do filho; a figura da ex-garota de programa; o maluco da cidade que ninguém sabe os motivos de sua loucura; o amigo do cara metido a rico que permaneceu na cidade e continuou sua vida ali. 

As questões que tocam o filme são importantes numa dimensão social. Em termos cinematográficos algumas abordagens não parecem coesas. Num primeiro momento o espectador é apresentado a uma cidade que corrompe com a ideia de 'cidades bucólicas' do interior. Cataguases, onde é ambientada a trama, é uma cidade barulhenta. As cenas no interior da fabrica de tecido não ignoram o som das batidas do maquinário. As externas são preenchidas com o som ambiente ou um silencio rígido.

A classe media baixa, o cotidiano dos operários, o relacionamento abusivo de filhos com as mães e a violência contra a mulher, são temas presente em todo filme que poderiam dar a dramaticidade necessária para a obra ser crível. Em contrapartida, as temáticas são utilizados como coadjuvantes de um filme que excede o foco numa relação que não se valida. 
FOTO: WALTER CARVALHO

"Redemoinho" é uma excelente obra se observada do ponto de vista da problematização da relação entre filho-mãe, da visibilidade da vida dos operários, do posicionamento das mulheres na sociedade, que da proposta original.

Ficha Técnica»»
Título: Redemoinho 
Duração: 100 min   
Direção: José Luiz Villamarim

Coprodução Bananeira Filmes
Distribuição Vitrine Filmes


6.3.17

A NECESSIDADE DA CONTRADIÇÃO NAS SOCIEDADES EM REDE

É importante que exista no nosso ciclo social o contraditório, o oposto. A essência da democracia é a contradição, a possibilidade dos seres humanos transmitir suas próprias opiniões
FOTO: PIXABAY

Vemos através do tempo o avanço da tecnologia de informação fazer com que a rede mundial de computadores gire em torno dos indivíduos. A causa estaria principalmente pelo estreitamento econômico das nações pelo processo de globalização. 

Estamos na era da personalização inteligente, entre os usuários e a rede. Esse estágio tecnológico não define apenas o gosto dos indivíduos, mas segrega, cada vez mais, um número maior de pessoas tornando-as reféns de seus círculos sociais e de sua ideologia. Que sociedade é essa pautada pela insegurança, informação, pelo fluxo e pela instabilidade?

Desde os primórdios da civilização, a humanidade esteve imersa numa rede de representações simbólicas. Na medida em que a rede não existe fisicamente, e esta, apenas compartilhada entre seres humanos, poderíamos considera-la virtual. Estamos numa sociedade conectada. Os limites entre a realidade e a virtualidade nunca foram tão tênues.

O sociólogo espanhol Manuel Castells denomina a ligação contínua entre real e virtual como “cultura da virtualidade real”. Assim, a realidade é transposta para as mídias digitais, tornando-se parte da rede que se distribuem, e tendo por efeito, reverberações na mesma realidade. O efeito dessa segregação dos indivíduos na rede alude a um fenômeno denominado pós-verdade.

A propagação de notícias falsas nas redes sociais e na internet de maneira geral, vem chamando atenção de estudiosos da comunicação e afins, para uma nova era que assemelhasse aos ideais do “Grande Irmão”, entidade do livro “1984” do inglês George Orwell. Do mesmo modo, o termo pós-verdade diz respeito a circunstâncias nos quais fatos e objetivos possuem menor importância que as convicções de indivíduos ou grupos.

Numa época em que direitos trabalhistas, de seguridade social, de políticas públicas que asseguram a vida no meio rural e urbano vem sendo revistos, por vezes, perdidos é preciso estar atento ao “ocorrido” e ao que “supostamente teria ocorrido”. Precisamos entender que a crise instaurada por uma época de instabilidades é, sobretudo, civilizatória.

Nossa cultura permeada pelo fluxo contínuo de informação nos impelem cada vez mais para uma bolha. Sozinhos, as informações partilhadas, base para a experiência das redes sociais, nos isolam em lados opostos, contraditórios e radicais. Acarreta-se numa massa de pessoas que vivem a partir de uma existência filtrada e quebrada. É importante que exista no nosso ciclo social o contraditório, o oposto. A essência da democracia é a contradição, a possibilidade dos seres humanos transmitir suas próprias opiniões.

Será que vamos permitir que nossa realidade se transforme em um produto preparado para nós e não por nós? Vamos permitir que nossos círculos sociais se estendam apenas e, somente, à aqueles que concordam com nossas afirmações? Como discerniremos “os fatos” de uma “convicção factualizada”? No fim, parece que nosso modo de vida conectado, inseguro, fluído e instável precisa mais do que nunca do jornalismo.