6.3.17

A NECESSIDADE DA CONTRADIÇÃO NAS SOCIEDADES EM REDE

É importante que exista no nosso ciclo social o contraditório, o oposto. A essência da democracia é a contradição, a possibilidade dos seres humanos transmitir suas próprias opiniões
FOTO: PIXABAY

Vemos através do tempo o avanço da tecnologia de informação fazer com que a rede mundial de computadores gire em torno dos indivíduos. A causa estaria principalmente pelo estreitamento econômico das nações pelo processo de globalização. 

Estamos na era da personalização inteligente, entre os usuários e a rede. Esse estágio tecnológico não define apenas o gosto dos indivíduos, mas segrega, cada vez mais, um número maior de pessoas tornando-as reféns de seus círculos sociais e de sua ideologia. Que sociedade é essa pautada pela insegurança, informação, pelo fluxo e pela instabilidade?

Desde os primórdios da civilização, a humanidade esteve imersa numa rede de representações simbólicas. Na medida em que a rede não existe fisicamente, e esta, apenas compartilhada entre seres humanos, poderíamos considera-la virtual. Estamos numa sociedade conectada. Os limites entre a realidade e a virtualidade nunca foram tão tênues.

O sociólogo espanhol Manuel Castells denomina a ligação contínua entre real e virtual como “cultura da virtualidade real”. Assim, a realidade é transposta para as mídias digitais, tornando-se parte da rede que se distribuem, e tendo por efeito, reverberações na mesma realidade. O efeito dessa segregação dos indivíduos na rede alude a um fenômeno denominado pós-verdade.

A propagação de notícias falsas nas redes sociais e na internet de maneira geral, vem chamando atenção de estudiosos da comunicação e afins, para uma nova era que assemelhasse aos ideais do “Grande Irmão”, entidade do livro “1984” do inglês George Orwell. Do mesmo modo, o termo pós-verdade diz respeito a circunstâncias nos quais fatos e objetivos possuem menor importância que as convicções de indivíduos ou grupos.

Numa época em que direitos trabalhistas, de seguridade social, de políticas públicas que asseguram a vida no meio rural e urbano vem sendo revistos, por vezes, perdidos é preciso estar atento ao “ocorrido” e ao que “supostamente teria ocorrido”. Precisamos entender que a crise instaurada por uma época de instabilidades é, sobretudo, civilizatória.

Nossa cultura permeada pelo fluxo contínuo de informação nos impelem cada vez mais para uma bolha. Sozinhos, as informações partilhadas, base para a experiência das redes sociais, nos isolam em lados opostos, contraditórios e radicais. Acarreta-se numa massa de pessoas que vivem a partir de uma existência filtrada e quebrada. É importante que exista no nosso ciclo social o contraditório, o oposto. A essência da democracia é a contradição, a possibilidade dos seres humanos transmitir suas próprias opiniões.

Será que vamos permitir que nossa realidade se transforme em um produto preparado para nós e não por nós? Vamos permitir que nossos círculos sociais se estendam apenas e, somente, à aqueles que concordam com nossas afirmações? Como discerniremos “os fatos” de uma “convicção factualizada”? No fim, parece que nosso modo de vida conectado, inseguro, fluído e instável precisa mais do que nunca do jornalismo.

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