8.3.17

No filme "Redemoinho" duas vidas são reavaliadas

O encontro de dois amigos regado a muito bebida, lembranças e rancores é tema de "Redemoinho". O filme não pretende contar um passado, se concentra num presente descontextualizado, e termina num futuro sem perspectiva
FOTO: WALTER CARVALHO
O reencontro ao acaso de dois amigos de infância na cidade de Cataguases, Minas Gerais, constitui o enredo do filme "Redemoinho", dirigido por José Luiz Villamarim e roteirizado por George Moura. O longa-metragem utiliza da dicotomia entre partida e permanência, passado e presente, sucesso e infortúnio para justificar o trauma de uma relação que não se solidifica entre os protagonistas da trama.

O primeiro elemento que caracteriza a obra é a crueza do barulho. O som é uma ferramenta física de impacto. O som machuca. As cenas de todo o longa possuem a ausência de trilha sonora musical. O barulho e o silêncio, contradições necessárias, fazem a atmosfera da trama ganhar peso. Embora as sequências das cenas iniciais se mostrem de uma delicadeza em sua imagética, e ao mesmo tempo, consistente em termos sonoros, a densidade da sonorização transporta, gradativamente, o espectador para uma turbulência auditiva incessante. 

A forma que o som e a imagem se encontram como um meio de problematizar a relação dos personagens Luzimar (Irandhir Santos) e Gildo (Júlio Andrade) nos remete a uma dinâmica ruidosa que se desenvolve, ainda que compassadamente, sem uma ideia de inicio ou de término entre os protagonistas.

Pensando sobre tecnologia associada à exibição da obra, seria importante considerar que elas envolvem aparatos fundamentais que imprimem ao espectador uma única experiência. A obra cinematográfica em questão possui em termos de imagem um enquadramento arrojado e, em certo sentido, revolucionário. A beleza da fotografia de Walter Carvalho e a potência da propagação do som fazem os espectadores ‘imergirem’ pela tela de cinema. "Redemoinho" se impõe pela relação imagem-som da experimentação do espectador no cinema. Talvez seja menos plausível a experiência por uma televisão, ou dispositivos móveis, reduzindo um dos potenciais deste longa-metragem à simples apreciação do imagético.
FOTO: WALTER CARVALHO
As possíveis justificativas entre a presença de corpos sonoros, como as cenas da chuva, do trem passando no meio da cidade, da fabrica, do rio ou da ausência da sonoridade, está na construção de discursos que tentam estabelecer estratégias para a trama.

A escolha do elenco pode ser uma das decisões mais cruciais e difíceis em determinados casos, mesmo que saibamos que o personagem praticamente define o ator ou atriz que deverá interpreta-lo. Os personagens de Irandhir Santos (Luzimar), Júlio Andrade (Gildo), Dira Paes (Toninha), Cássia Kis Magro (Dona Marta) e Demick Lopes (Zunga) embora sejam criveis não se sustentam com a textura da película. A trama, que se desenvolve a partir do reencontro dos amigos Luzimar e Gildo e as rememorações de um passado ininteligível, não convence. Neste sentido, faltou profundidade para os personagens, o que não se justifica se incluirmos até os protagonistas. As excelentes atuações dos atores consagrados da dramaturgia nacional, como Cássia Kis Magro, Dira Paes, Irandhir Santos não foram capazes de salvar a trama que parte do enfado ao incomodo.

A primeira pessoa que vê o filme, segundo as más-línguas, são os roteiristas. Espera-se dos roteiristas a história descrita em imagens e sons, contando uma narrativa com tenuidade, e certo preso pela literária, para que o espectador possa ver, ouvir e sentir. Roteiristas são artistas. Dentre todos os processos de materialização do filme, "Redemoinho" fraqueja no roteiro. Baseado no romance “Inferno Provisório” do escritor mineiro Luiz Ruffato, o roteiro careceu de amadurecimento da história. A sensação é de que faltou um mergulho no processo.

A estrutura da história, que não se apega ao tradicional início, meio e fim, foi usada de forma corajosa e atrevida. "Redemoinho" não pretende contar um passado, se concentra num presente descontextualizado, e termina num futuro sem perspectiva. A momentaneidade da trama não dá folego aos espectadores para entenderem os motivos que levaram aos personagens a serem quem são ou a justificativa para determinadas atitudes.
FOTO: WALTER CARVALHO
As identidades parecem muito bem demarcadas: o cara metido a rico que se deu bem na vida; a mãe que engole todos os sapos do filho; a figura da ex-garota de programa; o maluco da cidade que ninguém sabe os motivos de sua loucura; o amigo do cara metido a rico que permaneceu na cidade e continuou sua vida ali. 

As questões que tocam o filme são importantes numa dimensão social. Em termos cinematográficos algumas abordagens não parecem coesas. Num primeiro momento o espectador é apresentado a uma cidade que corrompe com a ideia de 'cidades bucólicas' do interior. Cataguases, onde é ambientada a trama, é uma cidade barulhenta. As cenas no interior da fabrica de tecido não ignoram o som das batidas do maquinário. As externas são preenchidas com o som ambiente ou um silencio rígido.

A classe media baixa, o cotidiano dos operários, o relacionamento abusivo de filhos com as mães e a violência contra a mulher, são temas presente em todo filme que poderiam dar a dramaticidade necessária para a obra ser crível. Em contrapartida, as temáticas são utilizados como coadjuvantes de um filme que excede o foco numa relação que não se valida. 
FOTO: WALTER CARVALHO

"Redemoinho" é uma excelente obra se observada do ponto de vista da problematização da relação entre filho-mãe, da visibilidade da vida dos operários, do posicionamento das mulheres na sociedade, que da proposta original.

Ficha Técnica»»
Título: Redemoinho 
Duração: 100 min   
Direção: José Luiz Villamarim

Coprodução Bananeira Filmes
Distribuição Vitrine Filmes


0 comentários:

Postar um comentário

O que você pensou a respeito desta publicação?